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Global Her

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Sociedad del cuidado

Um horizonte de desenvolvimento que reconhece nossa interdependência e coloca a sustentabilidade da vida no centro das decisões econômicas, sociais e políticas.

Colocar a vida no centro é também uma escolha sobre desenvolvimento.

Toda sociedade depende do cuidado.

Ele está presente no início da vida, na infância, na doença, na deficiência, no envelhecimento e em diferentes momentos de maior ou menor autonomia. Está nos domicílios e nas comunidades, mas também nos sistemas de saúde, educação, assistência e proteção social. Está no trabalho remunerado e no não remunerado. Está no tempo dedicado a alimentar, acompanhar, educar, apoiar, organizar e criar as condições cotidianas que tornam possível viver.

O cuidado não é, portanto, uma questão periférica à organização das sociedades. É parte da infraestrutura que sustenta a vida, a economia e a própria reprodução social.

Ainda assim, durante muito tempo, sua provisão foi tratada predominantemente como responsabilidade privada das famílias — e, dentro delas, das mulheres.

Na América Latina e no Caribe, essa organização permanece profundamente desigual. O trabalho de cuidado continua concentrado nos domicílios e recai de maneira desproporcional sobre as mulheres, enquanto a provisão pública e de mercado permanece insuficiente ou fragmentada. Essa sobrecarga produz efeitos concretos sobre autonomia econômica, inserção laboral, proteção social e participação em outras dimensões da vida.

Por isso, discutir cuidado é discutir como distribuímos tempo, recursos, responsabilidades e oportunidades em uma sociedade.

É também discutir quem dispõe de tempo para estudar, trabalhar, participar da vida pública, construir autonomia, descansar — e quem assume o trabalho necessário para que tudo isso seja possível.

Da invisibilidade à responsabilidade coletiva

A ideia de uma Sociedade do Cuidado nasce da necessidade de transformar essa organização.

Seu ponto de partida é simples, mas profundamente político: somos interdependentes.

Todas as pessoas precisam de cuidados ao longo da vida, ainda que em diferentes formas e intensidades. Reconhecer essa interdependência desloca o cuidado do campo da obrigação individual ou familiar e o coloca no campo dos direitos, das responsabilidades coletivas e das escolhas públicas.

Isso significa reconhecer simultaneamente o direito de receber cuidados, o direito de cuidar em condições dignas e o direito ao autocuidado. Significa também reconhecer os direitos das pessoas que realizam trabalho de cuidado, remunerado ou não remunerado.

Mas reconhecer o cuidado como direito não é suficiente se sua realização continuar dependendo exclusivamente da capacidade de cada família de resolver suas próprias necessidades.

Direitos precisam de instituições capazes de torná-los reais.

É nesse ponto que a sociedade do cuidado deixa de ser apenas um horizonte ético e passa a constituir uma agenda concreta de transformação do Estado, da economia e dos territórios.

Um novo paradigma de desenvolvimento

Construir uma sociedade do cuidado não significa simplesmente criar mais serviços de cuidado.

Significa reorganizar prioridades.

A formulação construída na América Latina e no Caribe propõe colocar a sustentabilidade da vida e do planeta no centro do desenvolvimento e reconhecer duas condições fundamentais da existência: nossa interdependência, porque dependemos uns dos outros, e nossa ecodependência, porque a vida humana depende dos sistemas naturais que a sustentam.

Essa mudança de perspectiva transforma também a maneira como compreendemos a economia.

O cuidado não é apenas aquilo que acontece antes ou depois da atividade econômica. Ele cria as condições para que ela exista. Forma pessoas, sustenta famílias, mantém comunidades, permite a participação no mercado de trabalho e movimenta uma extensa economia de serviços e empregos.

Por isso, o cuidado pode ser compreendido simultaneamente como necessidade, trabalho, direito, bem público e setor dinamizador da economia.

Colocá-lo no centro do desenvolvimento significa, portanto, perguntar não apenas quanto uma economia cresce, mas como organiza as condições que tornam a vida possível e como distribui os custos, o tempo e os benefícios desse desenvolvimento.

Corresponsabilidade: redistribuir o cuidado para redistribuir oportunidades

Nenhuma sociedade do cuidado pode ser construída mantendo a atual divisão das responsabilidades.

A transformação exige avançar da responsabilização predominantemente feminina e familiar para uma lógica de corresponsabilidade social e de gênero.

Isso implica uma distribuição mais justa entre mulheres e homens e, simultaneamente, entre Estado, famílias, comunidades e demais atores da sociedade. A própria organização social dos cuidados diz respeito à forma como esses atores se relacionam para produzir e distribuir cuidado.

Corresponsabilidade, portanto, não significa retirar das famílias o cuidado nem transferi-lo integralmente ao Estado.

Significa construir condições para que cuidar deixe de produzir desigualdade.

Significa reconhecer que as decisões sobre creches, escolas, saúde, assistência, mobilidade, habitação, proteção social, trabalho, licenças, serviços para pessoas idosas ou com deficiência, espaços públicos e infraestrutura urbana também são decisões sobre cuidado.

Quando o cuidado passa a ser compreendido dessa forma, ele deixa de ser uma política isolada e se torna uma lente para pensar a ação pública.

O cuidado acontece nos territórios

Embora os grandes marcos jurídicos, econômicos e institucionais sejam fundamentais, é nos territórios que as necessidades de cuidado se tornam concretas.

É onde as pessoas vivem que a distância até uma creche importa. Onde o tempo de deslocamento interfere na possibilidade de trabalhar. Onde a ausência de transporte acessível restringe autonomia. Onde equipamentos públicos, redes comunitárias, serviços de saúde e assistência podem aproximar — ou afastar — direitos da vida cotidiana.

Por isso, territorializar o cuidado não significa apenas descentralizar serviços. Significa compreender como necessidades, desigualdades, recursos, redes e formas de organização do cuidado se distribuem de maneira diferente entre territórios.

Os governos subnacionais ocupam, nesse processo, uma posição estratégica porque administram políticas e infraestruturas que afetam direta ou indiretamente a organização cotidiana do cuidado, do transporte e espaço público à água, saneamento e serviços essenciais.

É também no território que a participação social precisa ganhar materialidade. Políticas de cuidado democráticas exigem que as experiências e os conhecimentos de quem cuida e de quem necessita de cuidados participem da formulação, implementação e avaliação das respostas públicas.

Do reconhecimento à implementação

Há uma diferença decisiva entre reconhecer a importância do cuidado e reorganizar uma sociedade a partir dele.

A primeira produz discurso.
A segunda exige capacidade pública.

Exige marcos legais, governança, coordenação intersetorial e interfederativa, serviços e infraestrutura. Exige financiamento sustentável, dados, sistemas de informação, indicadores, participação social, profissionais qualificados, mecanismos de monitoramento e instituições capazes de transformar necessidades em respostas.

Exige também mudança cultural.

Redistribuir o cuidado pressupõe enfrentar a ideia de que cuidar é uma atribuição natural das mulheres e construir novas formas de corresponsabilidade entre os diferentes atores sociais. A literatura regional destaca justamente que serviços, por si sós, não são suficientes: políticas transformadoras precisam combinar provisão com estratégias capazes de modificar a distribuição social e de gênero do cuidado.

A sociedade do cuidado não se constrói apenas reconhecendo o cuidado. Constrói-se criando as condições políticas, econômicas, institucionais e territoriais para reorganizá-lo.

Nosso horizonte

Na Global HER, entendemos a Sociedade do Cuidado como horizonte e método de transformação.

Horizonte, porque aponta para sociedades capazes de reconhecer a interdependência, garantir direitos e distribuir de forma mais justa o tempo, os recursos e as responsabilidades necessários à sustentação da vida.

Método, porque oferece uma lente concreta para pensar desenvolvimento, políticas públicas, economia, territórios, igualdade de gênero, proteção social, democracia e sustentabilidade de maneira integrada.

É a partir dessa perspectiva que produzimos conhecimento, desenvolvemos políticas e projetos, fortalecemos capacidades institucionais e articulamos governos, territórios, academia, organizações internacionais e sociedade civil.

Nosso trabalho está justamente no espaço entre reconhecer e implementar.

Entre transformar o cuidado em compromisso e transformá-lo em política.
Entre produzir conhecimento e convertê-lo em capacidade pública.
Entre construir consensos globais e fazê-los chegar aos territórios.

Porque colocar o cuidado no centro não significa acrescentar uma nova agenda ao desenvolvimento. Significa repensar o desenvolvimento a partir daquilo que torna todos os outros processos possíveis: a sustentação da vida.